Um Texto Sobre Mim E Provavelmente Sobre Você Também - E aí Ferrá

Um Texto Sobre Mim E Provavelmente Sobre Você Também

11:00:00


Certo dia enquanto caminhava, coloquei-me a reparar na beleza paradoxal daquele local. Talvez, ao ler este pequeno período você tenha pensado que caminhei por um bosque, uma praça ou mesmo adentro de uma selva de pedras, mas não. Meu caminhar se deu num lugar muito mais profundo, que ao mesmo tempo que é extremamente particular, se faz ligeiramente parecido para muitos de nós, talvez todos. Gosto de chamar este cenário de jardim-cemitério, ou cemitério-jardim dependendo do meu estado astral no momento.

Logo por este nome, já se enxerga um pouco da beleza paradoxal anteriormente citada. A beleza do início e fim convivendo em harmonia. Onde a vida e a morte se fecham num ciclo de paz.

Neste meio jardim meio cemitério eu cuido daquilo que faço viver e trato de me certificar que tenho o melhor daquilo que um dia viveu. Não me refiro a entes ou bichinhos que fizeram de minha vida algo melhor. Nada disso. O que nasce e morre aqui são nada mais nada menos que meus puros sentimentos.

Observo antigas dores, antigos amores, velhos sorrisos e lágrimas se afundando nos braços da mortalidade. Os que já trataram de marcar sua presença o suficiente agora jazem pútridos nas memórias do que passou. Nessa parte cemiterial de meu jardim-cemitério, a saudade baila como vento por entre as lápides que guardam cada memória. A lembrança das lutas, das dores, das alegrias se juntam para compor a letra da história daquele sagrado local.

Enquanto isso, em meio aos sentimentos mortos que transbordam o passado, nascem novas sensações. Pequenos sorrisos brotam do chão cada dia mais fértil. Surgem os medos, as alegrias, tudo se renova neste jardim. Sinto os novos amores se misturando e florescendo com antigos que ainda se fazem vivos. Irrigados pelo sangue quente, cada novo ser deste jardim pulsa a vitalidade recém cultivada. A vida chega tal qual a morte se aproxima. É um ciclo inevitável. Assim, este jardim-cemitério continua a existir. Adubado pelas perdas e regado pelas vitórias. Cada morte se faz especialmente necessária, cada vida se faz especial. Dure um segundo ou uma vida inteira, aquele pequeno mundo só se faz perfeito neste ciclo ideal.

Não pense que conseguirá fugir. A morte alcança seu jardim, é impossível escapar. Muitas vezes, a fatalidade é dolorosa. Sim, ela traz dores que cegam seus olhos e coração. A perda dificilmente se faz ser algo simples. O primeiro passo para torná-la tão bela quanto o nascer de um novo sorriso, é entender que a vida só existe pois a morte acontece. Sem mortes, não há vida, sem vida, não há mortes.

É um ciclo infinito, belo, completo e transcendente. É o ciclo no qual estamos condenados a viver. Aceitar, entender, sentir, apreciar

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2 Comentários

  1. Embora seja um local que associamos com tristeza, sem dúvida é um lugar que evoca paz e nos mostra a nossa mortalidade. Parabéns pelo post.

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    1. Muito obrigada Ane! Fico super feliz que tenha gostado!!

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