Precisamos falar sobre os perigos dos anticoncepcionais. - E aí Ferrá

Precisamos falar sobre os perigos dos anticoncepcionais.

11:00:00



O textão é grande, mas ainda é menor que muita bula por aí.


Eu estava na faculdade, a aula tinha acabado mais cedo. Mexia no computador, sentada toda torta. Levantei. Tudo começou com uma dorzinha na perna, mas parecia só um mau jeito. Depois de um tempo, a dor aumentou. Parecia aquelas cãimbras que a gente têm quando tá dormindo, sabe? Só que não passava. É que, infelizmente, eu não estava dormindo, era tudo bem real. Fui até o carro quase sem conseguir encostar o pé no chão e ouvindo os meus familiares falando que era frescura demais pra uma dorzinha muscular. Quando cheguei em casa, a surpresa: perna roxa, extremamente inchada.

Me assustei, mas ainda não tinha ideia do que era aquilo. No desespero, minha mãe me deu um remédio para dor muscular, passou uma pomada massageando a minha perna para desinchar. Mais tarde descobrimos que isso foi tudo errado. Dormi com as pernas pra cima naquela noite.
No dia seguinte quando acordei, a dor continuava, mas já estava um pouco mais fraca. Sem me contar nada, minha mãe imaginou o que poderia ser. Deu os seus pulos e conseguiu uma guia para um exame sem precisar de consulta com médico. “É um exame na perna filha, só isso”. Achei que seria tipo um raio-x, sei lá.

Quando cheguei, estava bem tranquila. Fiz o exame mantendo a calma. “Deu positivo”, o médico disse. Minha mãe começou a chorar desesperadamente, a intuição dela tinha acertado. “Positivo? Positivo o que, Dr?”, eu perguntei. “Querida, esse aqui é o doppler, um exame para ver se você tem trombose. Infelizmente, deu positivo, sinto muito.”. Confesso que eu não estava entendendo nada, mas o choro da minha mãe e a pena do médico me assustaram bastante. Tentei acalmar minha mãe enquanto não sabia o que estava acontecendo direito. Já tinha ouvido falar sobre essa doença na escola, muito tempo atrás, mas não fazia ideia do que era isso exatamente. O médico recomendou que fossemos para uma emergência de hospital o mais rápido possível. Meu pai, assim que viu o choro da minha mãe, ficou desesperado também. Eu ainda estava em choque, mas eles me levaram correndo para o hospital. Fiquei em silêncio o caminho todo. Vai e vem, nenhum médico vascular de plantão em nenhum hospital. Fomos em uns cinco. Tenho um plano de saúde relativamente bom, solicitamos consulta paga, mesmo assim nenhum lugar podia me receber. Ô Brasilzão! Imagina se fosse no SUS? Pensei muito nisso naquele momento. Acabei em uma emergência sendo atendida por um clínico geral, depois de uma hora fazendo triagem. Minha mãe ainda chorava. Eu ainda estava em silêncio.

Quando finalmente consegui atendimento, descobri que não poderia ter feito metade do que fiz. O certo seria ter sido internada na hora que senti a dor, e ter ficado com a perna imobilizada, porque a trombose é nada mais que um coágulo (no meu caso, em uma veia da perna esquerda). O sangue descia para a perna, mas não conseguia subir direito. Mexer a perna, massagear, andar, podia deslocar esse coágulo pro pulmão (embolia pulmonar), e aí os riscos são enormes. Ok, aí eu fiquei realmente assustada. Tomei uma injeção de anticoagulante na barriga, pra afinar o sangue e facilitar esse processo de “subir da perna”. Doeu. Me receitaram o anticoagulante oral e me mandaram pra casa. Tudo errado. Deveriam me internar, mas não tinha nenhum vascular no hospital, de novo. Fui pra casa morrendo de medo. Naquela noite eu chorei bastante.

Consegui uma consulta com uma médica vascular para a manhã seguinte. Dessa vez eu não tava nada calma, e a médica não ajudou com isso. “A gente pode optar por um tratamento que é para dissolver o coágulo. Você fica em uma U.T.I com um cateter para o remédio tentar dissolver isso. Mas tem alguns riscos… você pode ter sangramentos em outros lugares, como no cérebro, e aí é um derrame né…”. Eu não consegui reagir muito bem com essa fala dela. Eu só perguntei: “E…?” e ela respondeu: “Caso isso aconteça, é complicado. Riscos de ficar paraplégica, ou…”. Eu esperei uma continuação, e nada. “Ou…?”, eu perguntei. Ela balançou a cabeça como quem diz “e aí já era”. Minha mãe chorou mais, eu continuei em choque.

Passei o final de semana em casa, sem me mexer na cama, esperando para ver se a minha perna desinchava ou se eu iria pra a U.T.I passar por isso tudo que sutilmente ouvi da médica. Foram os piores dias da minha vida. Eu precisava de ajuda para tudo, eu não dormia, eu não comia, eu só sentia medo e vontade de chorar. Ah, e muita dor.

Incomodei a médica pelo telefone várias vezes no final de semana, porque a cada dor nova que eu sentia, eu achava que podia morrer. Quando voltei no consultório dias depois, minha perna tinha desinchado um pouco. Não precisei ir pra U.T.I. Nunca senti tanto alívio na vida. Os dois meses seguintes continuaram sendo na cama, sem me mexer e sem fazer nada sozinha, mas eu até que lidei bem com isso. Esse tempo foi necessário pro coágulo “secar” e não ter mais chance de deslocar para lugar nenhum. Eu comecei a usar uma meia de compressão que começava na minha barriga e acabava no meu pé. Era muito difícil de colocar, doía e, pra melhorar, era verão. Ainda, eu fazia três compressas mornas por dia, mudei a alimentação e tomei mil tipos de remédio e homeopatias.
Isso tudo faz 2 anos e meio. Hoje, eu ainda tenho que tomar alguns cuidados. Uso meia anti trombo pra viagens longas, tomo remédio, tenho que dar uma maneirada em coisas que forcem a perna, e caso um dia eu queira ter filhos, eu vou ter que tomar injeção durante todos os dias da gravidez. Eu não posso fumar, nem ficar perto de fumaça, mas é só isso e está tudo bem. Fiz esse textão todo contando a minha experiência porque foi esse tipo de testemunho que busquei quando eu estava perdida, morrendo de medo e sem ter ideia da doença que eu tive.

Eu tinha 17 anos. Fiz centenas de exames e foi comprovado: nenhuma pré disposição genética. O motivo disso tudo foi única e exclusivamente, o anticoncepcional. Eu comecei a tomar com 14 anos, após a recomendação de um ginecologista super confiável da família. Ele me receitou sem pedir nenhum exame, sem falar de contra indicação, e ainda sugeriu que eu tomasse sem parar, porque “ninguém merece menstruar”. Era uma maravilha pra mim. As minhas espinhas desapareceram, a oleosidade sumiu e eu tinha uma pele de bebê. O meu fluxo menstrual, que era surreal, diminuiu muito. As minhas cólicas que eram fortes, daquelas que chegam a dar enjoo, viraram só um leve desconforto. Eu tava no céu com anticoncepcional, só que fui parar no inferno rapidinho. Por motivos óbvios, eu nunca mais pude tomar nenhum tipo de hormônio, nem colocar Mirena. Voltei com a pele oleosa, com o fluxo extremamente intenso e com as dores de cólica insuportáveis em todos os meses. Isso ainda me incomoda. Mas o que mais me incomoda, é ver que, assim como eu, muitas meninas tomam isso sem fazer exame nenhum e sem ter ideia do risco que correm. É claro, a trombose não acontece com todo mundo. Mas eu comecei a ver que é muito mais comum do que a gente pensa. Quase ninguém divulga esse risco. Eu levei sorte, muitas outras meninas que passaram por isso não tiveram a segunda chance como eu tive, naquele dia que fiz mil procedimentos errados antes de saber o que era.

Os ginecologistas saem por aí como o meu, distribuindo cartelas de amostra grátis para adolescentes de 14 anos que acham que essas pílulas são uma benção nas suas vidas. Quase ninguém avisa que combinar anticoncepcional com cigarro aumenta as chances de trombose (inclusive, meu médico disse que se eu fumasse, provavelmente teria sido bem pior). Quase ninguém pede exame antes de receitar. Aliás, nem é preciso de receita médica para comprar anticoncepcional. É claro que, com a minha experiência, eu virei uma hater desses comprimidinhos, mas a ideia não é fazer com que as meninas larguem isso de vez. Elas só precisam saber o que estão tomando. Tive que ouvir um dia que eu “pedi” para ter trombose porque “não li a bula”. Letrinhas miúdas e mil e uma contraindicações, verdade seja dita: quase ninguém lê a bula. São tantas informações, nem sempre escritas de maneira clara, que fica bem complicado ler e interpretar a bula de tudo que se toma. O fato de as meninas não lerem a bula até é um fator a mais, mas não tira a culpa dos ginecologistas despreparados e da falta de divulgação dos perigos dos anticoncepcionais.

Meninas, a gente precisa falar sobre os perigos dos anticoncepcionais. Falem com os seus médicos, se informem, se cuidem.

You Might Also Like

4 Comentários

  1. A minha mãe tinha depressão e um médico indicou o anticoncepcional para ajudar os antidepressivos, porém só piorou a situação, minha mãe ficou menos disposta e isso acabou tornando-a sedentária (mais ainda) que acabou gerando uma trobose venosa e que levou ela a falecer, desde então, já era contra, sou mais ainda, pois o anticoncepcional só prejudica a vida da mulher são bombas de hormônio para evitar algo que o homem deveria também se cuidar não apenas nós mulheres que já temos toda essa "cultura" de inferioridade.

    beijos Josi
    http://singularidades.blog.br/

    ResponderExcluir
  2. Nossa! Que susto. Eu nunca tomei anticoncepcional (ainda), mas morro de medo. Sei que é uma bomba de hormônio e tenho medo dessas complicações. Parabéns pela coragem de tratar esse assunto aqui. Precisamos nos informar mesmo. E que bom que você está bem!!!
    Blog Tamaravilhosamente

    ResponderExcluir
  3. Caramba! Primeira vez que fiz tratamento com anticoncepcional para acabar com o policisto, eu tinha 15 anos. Melhorei, parei. Aí tudo que eu sentia nessa época voltou, tive que voltar novamente com os anticoncepcionais. Mas sempre fiz exames, falei com gino. Aí veio muitas notícias sobre casos de trombose, aí parei novamente. O ruim é que sofro, fico em um dilema.

    ResponderExcluir
  4. Anticoncepcional é realmente um veneno para a saúde da mulher. Tomei por alguns meses para "tratar" miomas e foi uma das piores coisas que fiz na vida. Tive vários efeitos colaterais, uma TPM eterna. Neste tempo descobri que tenho varizes, logo AC combinado não era a melhor opção para mim. O que mais me frustra e ir de médico em médico e ouvir que o anticoncepcional é a unica opção para meu caso, mesmo relatando os efeitos colaterais.

    ResponderExcluir